Revista “Devir” (Editora Licorne)

A Oficina pode, de vez em quando, estar desarrumada, porém nunca perde os cantos à casa. Sabemos muito bem a estante especial onde guardamos os cinco números da “Devir – Revista Ibero-Americana de Cultura”, essa revista de excelência dirigida por Ruy Ventura e Nuno Matos Duarte, publicada pela Editora Licorne.
Enquanto aguardamos pelo sexto número, aproveitamos para reler estas cinco edições que o antecedem.

Luis Leal, colaborador da OLP, celebra o “Dia Mundial da Poesia” com a Biblioteca Pública de Elvas

Luis Leal, colaborador do nosso projeto, celebrou o “Dia Mundial da Poesia” com uma instituição de enorme importância cultural na “rai(y)a”, a Biblioteca Pública de Elvas.

Citando o nosso colaborador, «Ali tenho duas coisas que me fascinam. Um espólio riquíssimo de serviço público e uma sala, como a “Públia Hortência” (à qual dedico este “Despojos de Alexandria”), que me fazem dar razão a Borges: “Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca.”. »

Fazemos das suas palavras as nossas palavras e partilhamos convosco este recurso publicado pela Biblioteca Pública de Elvas.

“Despojos de Alexandria” – Luis Leal

Évora, a terra da alma (30 anos, Património da Humanidade) – Luis Leal

Apercebi-me de Évora ser o que é quando tinha 5 anos. Estava um senhor, creio que funcionário camarário, debaixo dos arcos, esfregando a escova áspera palavras já suaves de ordem dum pós-revolução. Aquilo custava-lhe imenso, e à minha curiosidade também, mas via como cuidava com brio o granito histórico da minha cidade. “Vem cá a Rainha de Inglaterra” disse meu pai à minha estupefação em frente do escadote aberto em hora de expediente. Sem grande ruído nem furor, esse foi primeiro contacto que tive com um argumento shakespeariano, com uma figura da realeza sem ser a dos contos dos irmãos Grimm. Há tanta luminosidade nesta minha recordação… na minha cidade…

Aprendi com Claudio Rodríguez que todos levamos uma terra dentro, que nos alenta, que nos acusa e que nos salva. É a terra da alma.

Nasci em ali e em mim habita cada rua, cada casa, cada passo, saltos e trambolhões, cada eborense guardião desse templo de capiteis de luz ao qual regresso tantas noites em sonhos. Ali me ajoelho, leal à sua história, apesar de Évora não mo permitir. Em solo com reminiscências feudais, esta cidade, erguida por três culturas, ensina-nos a dignidade de, no latifúndio do espírito, mandarmos apenas nós.

Há 30 anos atrás, atribuiu-se-lhe o estatuto de Património da Humanidade e de ponta-de-lança no que respeita a atribuições deste tipo no Alentejo. Envaidece-me essa espécie de “Liga dos Campeões” da UNESCO. Porém, para quem se sente eborense, é o seu andar, caminhar, passo a passo, pela vida da cidade, o verdadeiro património, para mim, bastante mais imaterial que material.evora-por-luis-leal